Passe Livre

Opinião e a ação de Ricardo Young e equipe sobre as manifestações do Passe Livre São Paulo

Cai a máscara

Durante todos os dias de manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, tentou-se caracterizar o movimento pelo vandalismo – e não faltavam argumentos, porque sempre há excessos. Assim, as autoridades policiais diziam que a força era usada de forma reativa. Na noite de ontem, porém, as cenas falaram mais alto que os discursos. Acompanhamos o desfecho do ato dessa quinta-feira nas delegacias do 78o DP e, já por volta da 1h da manhã, no 1o DP. O tenente Ben-Hur Junqueira Neto, que comandou a contenção dos manifestantes, assegurou que as apreensões teriam sido tranquilas e sem truculência. Conversei com ele e também com dezenas de manifestantes detidos. Uma minoria relatou algum grau de vandalismo; a maioria era de participantes pacíficos. Eles contam que foram cercados na Praça Roosevelt, pelas tropas da Polícia Militar, que diziam ter “ordens para reprimir”. Acuos e detenções seguiram pelas ruas que levavam até a av. Paulista e detiveram mais de uma centena de manifestantes. Boa parte deles foram para o 78o DP, onde constatei que menos de 10 pessoas foram flagradas com coqueteis molotov e armas brancas, como canivetes. A maioria foi detida sem acusação, apenas “para averiguação”. Segundo o delegado, todos seriam liberados. Na busca de constatar os fatos e garantir a integridade dos processos de detenção, acompanhei os casos que pude. Uma jovem tentou registrar um boletim de ocorrência contra a agressão que sofreu dos policiais durante sua apreensão. Eles tinham acabado de liberá-la, depois de ouvir seu depoimento de participante pacífica, mas se negaram a registrar o B.O. Intercedi pelo caso dela, junto a uma defensora pública. Ainda assim, ela teve que procurar outra delegacia. Outro caso abusivo que presenciei foi a revista das mochilas dos detidos. Os policiais revistavam as bolsas na ausência dos seus proprietários, sem cuidado algum. Em seguida, levavam os materiais até os donos, que não reconheciam seus pertences. “Essa blusa não é minha”, um estranhava. “É minha!”, gritava outro na ponta da fila. Um deles foi surpreendido quando o PM sacou de dentro da bolsa uma embalagem plástica com maconha. Outro, menor de idade, estranhou ao receber de volta sua mochila: muito pesada. Estava cheia de pedras! Minha assessoria chegou a prestar depoimento como testemunha das revistas inadequadas. Para um defensor público que acompanhou a movimentação na delegacia, é “absurda e ‘típica de uma ditadura’ a apreensão sem flagrante”. Ele não descarta a possibilidade de os policiais tentarem plantar provas que justifiquem a ação exagerada. Já no 1o DP, fiquei impressionado com o caso de Gustavo Oliveira, que relatou ter sido humilhado, com xingamentos e golpes bem marcados de cassetete nas costas, durante a apreensão pelos policiais. Por fim, orientei todos os manifestantes que relataram abuso policial a denunciarem os casos, encaminhando seus boletins de ocorrência para a Corregedoria da Polícia Militar. Afinal, na tarde de ontem, questionei o Capitão Caio Desbrousses durante uma palestra no plenário da Câmara e ele garantiu que os desvios seriam devidamente investigados e punidos. Vamos cobrar! Agora, não esqueçamos do pleito, que é justo. Se Haddad está seguro de sua decisão, poderia vir a público explicá-la. Em vez de autoridade policial, a Prefeitura e o Estado deveriam entrar no mérito da questão: por que a tarifa custa quanto custa? Para onde ela vai? Como é utilizada junto aos mais de 1,3 bilhão/ano em subsídios às empresas permissionárias? Na reunião da Comissão de Transportes da Câmara, solicitei à SPTrans que envie sua planilha de custos para ajudar a responder essas questões. Também proponho que Prefeitura, movimento Passe Livre e governo do Estado venham usar o espaço da Câmara para o diálogo.

Mas o fato é que, depois da violência empregada na noite de ontem, o governo terá dificuldades de se explicar. Se até então tínhamos dúvidas, agora a máscara caiu.

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